Introdução: Cândido Rondon e a Integração do Território Brasileiro
A história da integração territorial do Brasil, especialmente durante a Primeira República, está profundamente ligada à atuação de Cândido Rondon. Militar, engenheiro e sertanista, Rondon liderou uma das mais ambiciosas iniciativas de infraestrutura do início do século XX: a expansão das linhas telegráficas pelo interior do país.
Em um Brasil marcado por enormes vazios demográficos, regiões isoladas e comunicação precária entre o litoral e o interior, o telégrafo representava não apenas um avanço tecnológico, mas também um instrumento estratégico de soberania nacional. As expedições chefiadas por Rondon tinham como objetivo integrar áreas remotas, fortalecer a presença do Estado e abrir caminhos para a ocupação e o desenvolvimento econômico.
Ao mesmo tempo, essas frentes de expansão colocaram os agentes do governo em contato direto com inúmeros povos indígenas, gerando encontros marcados por tensões, conflitos e tentativas de mediação cultural. O lema atribuído a Rondon — “morrer, se preciso for; matar, nunca” — tornou-se um símbolo de sua postura diante desses contatos, embora o impacto das expedições sobre os povos originários seja um tema complexo e debatido pela historiografia.
O Brasil da Primeira República e o Desafio da Integração Territorial
A Fragmentação do Território Nacional
No final do século XIX e início do XX, o Brasil ainda apresentava grandes áreas praticamente desconhecidas pelo poder central. Regiões como o Centro-Oeste e a Amazônia possuíam baixa presença do Estado, infraestrutura precária e comunicação limitada com os grandes centros urbanos do Sudeste e do litoral.
A ausência de estradas, ferrovias e meios de comunicação eficazes dificultava o controle administrativo, a defesa das fronteiras e o desenvolvimento econômico dessas áreas. Nesse contexto, a expansão das linhas telegráficas foi vista como uma solução estratégica para integrar o território nacional.
O Telégrafo como Ferramenta de Soberania
O telégrafo, tecnologia revolucionária para a época, permitia a transmissão rápida de informações entre regiões distantes. Sua implantação no interior do Brasil tinha múltiplos objetivos:
- Reforçar a soberania sobre áreas de fronteira;
- Integrar politicamente regiões isoladas;
- Facilitar a atuação militar e administrativa do Estado;
- Estimular a ocupação e a exploração econômica do território.
Esses objetivos explicam por que o governo republicano investiu fortemente em expedições de reconhecimento e construção de linhas telegráficas, confiando essa missão a oficiais com formação técnica e espírito explorador.
A Comissão Rondon e a Expansão das Linhas Telegráficas no Brasil
Origem e Objetivos da Comissão
A chamada Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, popularmente conhecida como Comissão Rondon, foi criada para implantar e manter uma rede de comunicação ligando o interior do país às capitais e centros administrativos.
Sob a liderança de Cândido Rondon, a comissão realizou expedições por regiões de difícil acesso, abrindo picadas na mata, mapeando rios, serras e planícies, além de estabelecer postos telegráficos ao longo do percurso.
Infraestrutura, Ciência e Exploração do Território
As expedições da Comissão Rondon não tinham apenas caráter técnico. Elas também contribuíram para o conhecimento científico do território brasileiro. Geógrafos, engenheiros, médicos e naturalistas participaram dessas jornadas, produzindo mapas, relatórios e registros sobre a fauna, a flora e os povos indígenas da região.
Assim, a expansão das linhas telegráficas foi acompanhada por um processo de “descoberta” e apropriação simbólica do interior do Brasil pelo Estado nacional. Esse movimento reforçou a ideia de que o território precisava ser conhecido, mapeado e integrado para garantir a unidade nacional.

Expedição Rondon-Roosevelt (1914)
Cândido Rondon: Formação, Ideias e Projeto Nacional
Formação Militar e Positivismo
Cândido Rondon formou-se em um ambiente influenciado pelo positivismo, corrente filosófica que valorizava a ciência, a ordem e o progresso como bases para a construção da sociedade. Esses princípios marcaram profundamente sua atuação.
Para Rondon, a expansão das linhas telegráficas não era apenas uma missão técnica, mas um projeto civilizatório: integrar o território, levar a presença do Estado e promover o “progresso” em regiões consideradas isoladas.
O Lema Humanista e o Contato com Povos Indígenas
O contato com os povos indígenas foi uma das dimensões mais delicadas das expedições. Rondon defendia uma política de aproximação pacífica, buscando evitar confrontos armados. Seu lema tornou-se um marco simbólico dessa postura.
Entretanto, mesmo com a intenção de evitar a violência direta, as expedições contribuíram para a intensificação do contato entre indígenas e frentes de expansão econômica, o que, em muitos casos, resultou em impactos negativos, como doenças, deslocamentos forçados e perda de territórios tradicionais.
O Contato com os Povos Indígenas: Encontros, Tensões e Consequências
Primeiros Contatos e Estratégias de Aproximação
Durante a expansão das linhas telegráficas, as equipes de Rondon entraram em contato com diversos grupos indígenas que até então mantinham pouco ou nenhum contato com a sociedade envolvente. A estratégia adotada incluía:
- Evitar confrontos diretos;
- Utilizar presentes e gestos simbólicos para demonstrar intenções pacíficas;
- Estabelecer postos de contato e observação.
Essas práticas buscavam minimizar conflitos armados, mas não eliminavam as assimetrias de poder entre o Estado e os povos indígenas.
Impactos Sociais e Culturais
Apesar do discurso humanista, o avanço das linhas telegráficas abriu caminho para outras formas de ocupação: fazendas, seringais, garimpos e núcleos urbanos. Esse processo teve consequências profundas para os povos indígenas:
- Perda de territórios tradicionais;
- Exposição a doenças;
- Transformações forçadas em modos de vida;
- Conflitos com colonos e exploradores econômicos.
A historiografia contemporânea busca analisar essas expedições de forma crítica, reconhecendo tanto o papel de Rondon na defesa de uma política menos violenta quanto os efeitos estruturais da expansão do Estado sobre os povos originários.
Integração Territorial, Fronteiras e Construção do Estado Nacional
A Consolidação das Fronteiras
A expansão das linhas telegráficas também teve importância estratégica para a consolidação das fronteiras brasileiras, especialmente em regiões próximas a países vizinhos. A presença de postos telegráficos e expedições militares reforçava a ocupação efetiva do território, elemento fundamental para a diplomacia e a defesa nacional.
Comunicação, Poder e Administração
Com a instalação do telégrafo, o Estado brasileiro passou a exercer maior controle administrativo sobre regiões antes isoladas. Ordens, informações e relatórios circulavam com mais rapidez, fortalecendo o poder central.
Essa integração comunicacional contribuiu para a formação de um Estado mais presente no interior, ainda que de forma desigual e muitas vezes associada a interesses econômicos e militares.
Debates Historiográficos: Herói Nacional ou Agente da Expansão do Estado?
A Construção da Imagem de Cândido Rondon
Durante décadas, Rondon foi celebrado como herói nacional, símbolo de coragem, patriotismo e humanismo. Sua imagem foi associada à integração do território e à defesa dos povos indígenas.
Entretanto, a historiografia mais recente propõe uma leitura mais crítica, destacando que, apesar de suas intenções, Rondon foi um agente do projeto de expansão do Estado nacional, cujas consequências para os povos indígenas foram, em muitos casos, traumáticas.
Uma Leitura Crítica e Equilibrada
Uma abordagem historiográfica equilibrada reconhece:
- O papel fundamental de Rondon na integração territorial e na infraestrutura de comunicação;
- Sua postura relativamente mais humanista em relação a outros agentes de expansão;
- Os impactos negativos estruturais das expedições sobre os povos indígenas e o meio ambiente.
Essa perspectiva permite compreender a complexidade do processo histórico, evitando tanto a idealização acrítica quanto a condenação simplista.
Legado de Cândido Rondon para o Brasil Contemporâneo
Infraestrutura e Integração Nacional
A expansão das linhas telegráficas foi um marco na história da comunicação no Brasil e contribuiu para a integração territorial do país. Mesmo com o avanço de novas tecnologias ao longo do século XX, o telégrafo desempenhou papel decisivo na consolidação da presença do Estado em regiões remotas.
Povos Indígenas e Memória Histórica
O legado de Rondon também está presente nos debates contemporâneos sobre os direitos dos povos indígenas e as políticas de proteção territorial. Sua atuação influenciou a formulação de políticas indigenistas no Brasil, ainda que essas políticas tenham sido atravessadas por contradições e limites estruturais.
Conclusão: Integração, Conflitos e Memória Histórica
A atuação de Cândido Rondon na expansão das linhas telegráficas no Brasil representa um capítulo fundamental da história da integração territorial e da construção do Estado nacional. Suas expedições ajudaram a conectar regiões isoladas, fortalecer a soberania e ampliar o conhecimento sobre o interior do país.
Ao mesmo tempo, esses processos estiveram associados ao avanço do Estado sobre territórios indígenas, gerando impactos profundos e duradouros. Compreender esse passado exige uma abordagem crítica, que reconheça tanto os avanços tecnológicos e políticos quanto as consequências sociais e culturais para os povos originários.
Sugestões de Links Externos
- Biblioteca Nacional Digital (documentos sobre expedições e telégrafo no Brasil)
- Arquivo Nacional (relatórios e mapas históricos)
- Museus e Institutos de Pesquisa Histórica Brasileiros
Fontes Bibliográficas
- PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo – Companhia das Letras, 2011.
- CALMON, Pedro. História do Brasil: século XX – A República e o Desenvolvimento Nacional (Vol. V).
- RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro.
- RIBEIRO, Darcy. Os Índios e a Civilização: A integração das Populações Indígenas no Brasil Moderno – Global Editora, 2023
