Introdução: Campos Sales, Café e a Consolidação da Primeira República
O governo de Campos Sales (1898–1902) representou um marco decisivo na consolidação política e econômica da Primeira República brasileira. Em um contexto de crise financeira, instabilidade política e dependência das exportações, o café ocupava posição central na economia nacional. O desafio do novo governo era duplo: estabilizar as contas públicas e garantir a sustentação do principal produto de exportação do país.
A chamada política de valorização do café, embora mais sistematizada nos anos seguintes, encontrou no governo Campos Sales suas bases institucionais e financeiras. Ao reorganizar as finanças públicas, negociar a dívida externa e estabelecer um novo pacto político com as elites regionais, o presidente criou as condições para que o Estado passasse a intervir de forma indireta no mercado cafeeiro, protegendo os interesses das oligarquias produtoras e assegurando a estabilidade da República.
Este artigo analisa o governo Campos Sales e a política de valorização do café, discutindo seus fundamentos econômicos, seus impactos políticos e sociais e suas consequências de longo prazo para a economia brasileira.
O Contexto da Crise Financeira e da Economia Cafeeira no Final do Século XIX
Crise Econômica e Endividamento Externo
Ao final do século XIX, o Brasil enfrentava uma grave crise financeira. A jovem República herdara problemas estruturais do período imperial e agravara sua situação com políticas monetárias expansionistas nos primeiros anos do regime, que resultaram em inflação, desvalorização cambial e perda de credibilidade internacional.
A dívida externa brasileira pressionava o orçamento, comprometendo a capacidade do Estado de investir em infraestrutura e de sustentar sua máquina administrativa. Nesse cenário, a necessidade de renegociar compromissos financeiros com credores estrangeiros tornou-se prioridade absoluta do novo governo.
O Café como Base da Economia Brasileira
O café era responsável por grande parte das exportações brasileiras, sustentando a balança comercial e garantindo divisas ao país. As principais regiões produtoras concentravam-se em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde as elites cafeeiras exerciam forte influência política.
Entretanto, a expansão da produção cafeeira ao longo do século XIX gerara um problema recorrente: a superprodução. Em períodos de excesso de oferta no mercado internacional, os preços do café caíam drasticamente, comprometendo a renda dos produtores e, por consequência, a arrecadação do Estado. A instabilidade dos preços transformou o café em um tema central da política econômica da Primeira República.

Campos Sales com ministros de seu governo.
O Governo de Campos Sales: Ajuste Fiscal e Estabilização Monetária
O Funding Loan e a Reorganização das Finanças
Uma das principais medidas do governo de Campos Sales foi a negociação do chamado funding loan, um acordo com credores internacionais que reestruturou a dívida externa brasileira. O objetivo era garantir um período de alívio financeiro, permitindo ao governo reorganizar suas contas e recuperar a credibilidade do país no mercado internacional.
O funding loan impôs duras condições de austeridade fiscal, incluindo cortes de gastos públicos, controle da emissão de moeda e compromisso com o pagamento regular da dívida. Essas medidas contribuíram para estabilizar a moeda e conter a inflação, mas também tiveram impactos sociais negativos, ao reduzir investimentos em áreas como infraestrutura e serviços públicos.
A política de Austeridade e seus Efeitos
A política de austeridade implementada por Campos Sales foi fundamental para restaurar a confiança dos credores estrangeiros, mas aprofundou desigualdades sociais. O ajuste fiscal recaiu, em grande medida, sobre a população urbana e os trabalhadores, que enfrentaram desemprego e redução de investimentos públicos.
Por outro lado, a estabilização monetária beneficiou os setores exportadores, especialmente os cafeicultores, que passaram a operar em um ambiente de maior previsibilidade cambial e financeira. Esse equilíbrio entre austeridade fiscal e proteção indireta ao setor cafeeiro revela a lógica central do governo Campos Sales: estabilizar o Estado sem romper com os interesses das elites agrárias.
A Política de Valorização do Café: Fundamentos e Antecedentes
Superprodução e Crise de Preços
A política de valorização do café surgiu como resposta à recorrente crise de superprodução. Com o aumento da produção e a queda dos preços no mercado internacional, os produtores enfrentavam prejuízos crescentes. Como o café era a base da economia nacional, a crise do setor tinha repercussões diretas sobre a arrecadação do Estado e a estabilidade política do regime.
O Papel do Estado na Regulação do Mercado Cafeeiro
Durante o governo Campos Sales, consolidou-se a ideia de que o Estado deveria atuar como mediador indireto do mercado cafeeiro, criando condições financeiras e institucionais para sustentar os preços do produto. Embora as políticas de intervenção direta se tornassem mais visíveis nos governos posteriores, o período de Campos Sales foi fundamental para estruturar:
- O compromisso do Estado com a estabilidade do setor cafeeiro;
- A articulação entre governo federal e elites estaduais produtoras;
- A legitimação da intervenção econômica em nome da estabilidade nacional.
Esses elementos pavimentaram o caminho para políticas mais explícitas de valorização do café no início do século XX.

Campos Sales, Julio Roca e o Barão do Rio Branco em viagem à Petrópolis, 1907.
Café, Oligarquias e a Política dos Governadores
A Aliança entre Poder Federal e Elites Regionais
O governo Campos Sales também ficou marcado pela consolidação da chamada “política dos governadores”, um arranjo político que fortalecia a aliança entre o governo federal e as oligarquias estaduais. Em troca de apoio político no Congresso, o governo federal reconhecia e reforçava o poder das elites regionais sobre seus estados.
Essa articulação política garantiu estabilidade institucional à República, mas consolidou um sistema oligárquico, no qual o poder político estava concentrado nas mãos de grupos ligados à grande propriedade rural, especialmente os cafeicultores.
O Café como Base do Poder Político
A política de valorização do café não pode ser compreendida apenas como uma medida econômica. Ela estava profundamente ligada à manutenção do poder das oligarquias cafeeiras. Ao proteger os preços do café e garantir a sustentabilidade econômica do setor, o Estado assegurava a base material do poder político dessas elites.
Assim, economia e política se entrelaçavam: valorizar o café significava, em grande medida, valorizar o próprio regime político da Primeira República, sustentado por alianças entre o governo central e os grandes produtores.
Impactos Econômicos e Sociais da Política de Valorização do Café
Estabilidade Econômica e Dependência Exportadora
A política de valorização do café contribuiu para estabilizar a economia brasileira no curto prazo, garantindo receitas de exportação e evitando colapsos financeiros mais profundos. No entanto, ela também reforçou a dependência do país em relação a um único produto de exportação.
Essa dependência limitou a diversificação econômica e atrasou o desenvolvimento de setores industriais mais dinâmicos, mantendo o Brasil preso a um modelo primário-exportador.
Consequências Sociais e Regionais
Os benefícios da valorização do café concentraram-se nas regiões produtoras e entre as elites agrárias. Já as populações urbanas e os trabalhadores rurais pouco se beneficiaram diretamente dessas políticas. A manutenção do poder das oligarquias contribuiu para a perpetuação de desigualdades sociais e regionais, que marcariam a história brasileira ao longo do século XX.
Críticas e Debates Historiográficos
Intervenção Estatal e Liberalismo Econômico
O governo Campos Sales é frequentemente analisado como um paradoxo: ao mesmo tempo em que defendia a austeridade fiscal e a estabilidade monetária, criou as bases para uma intervenção indireta do Estado no mercado cafeeiro.
Esse aparente contraste revela a lógica pragmática da Primeira República: o liberalismo econômico era aplicado de forma seletiva, sendo flexibilizado quando os interesses das elites agrárias estavam em jogo.
Herança para os Governos Seguintes
As políticas estruturadas durante o governo Campos Sales influenciaram decisivamente os governos posteriores, que aprofundaram a política de valorização do café e consolidaram o papel do Estado como mediador dos interesses do setor cafeeiro. Essa herança moldou a economia política da República Velha e teve efeitos duradouros sobre o desenvolvimento econômico do país.
Conclusão: Campos Sales, Café e a Construção da Economia Política da Primeira República
O governo de Campos Sales foi um ponto de inflexão na história econômica e política da Primeira República. Ao estabilizar as finanças públicas, negociar a dívida externa e estruturar as bases da política de valorização do café, o presidente contribuiu para consolidar um modelo de Estado que conciliava austeridade fiscal com proteção indireta aos interesses das elites cafeeiras.
Esse modelo garantiu estabilidade institucional no curto prazo, mas aprofundou a dependência econômica do café e reforçou o poder oligárquico, limitando as possibilidades de transformação social e diversificação econômica. Compreender esse período é essencial para analisar as raízes das desigualdades e das escolhas estruturais que marcaram o desenvolvimento do Brasil ao longo do século XX.
Sugestões de Links Externos
- Biblioteca Nacional Digital (documentos sobre a Primeira República e a economia do café)
- Arquivo Nacional (relatórios financeiros e correspondências do período)
- Institutos de pesquisa histórica e econômica brasileiros
Fontes Bibliográficas
- PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo – Companhia das Letras, 2011.
- CALMON, Pedro. História do Brasil: século XX – A República e o Desenvolvimento Nacional (Vol. V).
- FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil – Companhia das Letras, 2007.
- SODRÉ, Nelson Werneck. História da Burguesia Brasileira, Civilização Brasileira, 2ª edição, 1967
- FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do patronato político brasileiro – Companhia das Letras, 2021.
